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Wolf Guy - no original, Ōkami no Monshō - é uma readaptação de 2007, feita por Yoshiaki Tabata e Yuuki Yugo de um mangá de 1970 que gerou até um live action em 1973 sobre um jovem lobisomem. A releitura conta com 12 volumes e 117 capítulos, com uma história já fechada e concluída em 2012.

Akiko Aoshika, a protagonista feminina e orelha da história é uma professora que, irritada por ser designada para ser responsável pelo aluno mais problemático do colégio se embriaga e ao tentar voltar para casa à noite encontra um adolescente que provavelmente seria um colegial. Se sentindo responsável ao ver que o rapaz está perambulando em um horário que não é bem visto para tal idade, Aoshika o segue enquanto ele tenta persuadi-la do contrário e os dois acabam no meio de um parque com vários adolescentes que ela também rotularia como problemáticos.

Aparentemente os vândalos são do colégio antigo do garoto e o espancam repetidamente, para horror da professora, mas ele continua se levantando até o líder da massa se estressar e passar com um carro por cima dele. Os outros adolescentes vão revistá-lo e nessa hora, Aoshika desmaia e não vê o rapaz se transformar no lobisomem que dá título ao mangá.

Acordando sozinha, cercada pelos corpos espancados dos jovens, Aoshika é acompanhada por policiais até o colégio após prestar depoimento e encontra o adolescente que ela julgara ter morrido atropelado. Ela descobre então, que ele é seu novo aluno transferido. Isso tudo é só o primeiro capítulo!

Wolf Guy é um mangá bem rápido até a primeira metade onde, à partir do momento em que o leitor já identificou todos os personagens relevantes e seus desvios de personalidade, começa a focar no desenvolvimento deles para o mal ou para o pior.

Akira Inugami, o protagonista e lobisomem, faz muito mais o tipo anti-herói do que o "cara bonzinho". No primeiro dia no colégio já é ameaçado antes de se apresentar na classe, e consegue irritar todos os capangas do “líder” da escola. Fora o fato de ignorar a inspeção da professora Aoshika como se os dois nunca tivessem se encontrado.

É explicado que o mesmo não simpatiza com humanos e o com o quanto eles são reativos e fracos em relação aos instintos mais animalescos como ira e luxúria, o que já joga o tapa na sociedade quando julgamos os demais animais como seres sem consciência. Os lobos são mostrados como seres civis, formando uma sociedade muito mais organizada e "nobre" do que os humanos na perspectiva de Inugami.

Ao mesmo tempo que ele mantém essa fachada arrogante, percebemos que a distância se trata do medo de sua maldição - sempre que ele se aproxima de alguém esse alguém se fere, começando por seus pais. Essa parte da maldição é bem pesada. Qualquer pessoa que fizer o mínimo de ligação com Akira tem um destino terrível quase que imediatamente, desde assassinato até queda de avião e é por isso que o mesmo tenta evitar a intromissão da professora a qualquer custo, enquanto tenta não se importar com ela.

A forma e a mitologia da transformação de Akira também é bem mais aceitável que muitas mídias sobre lobisomens que vemos hoje. Não tentam humanizar o rosto do lobo, visto que essa forma é a que ele considera verdadeira, e sim tentam tornar a face dele o mais puxada possível para o lobo enquanto ainda está em forma humana. Ele também é influenciado pela lua e tem todos os bursts de adrenalina que se espera quando ela está em seu auge.

Aoshika é uma professora extremamente espontânea, que se mostra preocupada mesmo com os alunos mais cruéis em sua classe o que é demonstrado no quinto capítulo onde um deles sofre um “pequeno acidente” envolvendo uma faca - mesmo sabendo que o aluno não tem respeito pela vida alheia - ou mesmo quando segue o Inugami antes de saber que o mesmo seria seu aluno.

Ela foi vítima de abuso quando jovem e se tornou uma mulher bonita, sendo a primeira vítima de assédio toda vez que algo ruim acontece no mangá. Aoshika sempre se pergunta se realmente foi prudente ter se separado do marido para seguir o sonho de professora, mesmo assim, procura fazer o melhor que pode e ainda sendo a comic relief da história. Ela fica impactada ao encontrar Inugami pela primeira vez, tentando descobrir o que há por trás da sobrevivência dele, ao mesmo tempo que tenta protegê-lo do que ela vê como atitudes destrutivas de sua parte - começando por perturbar o aluno proclamado líder do colégio. O que nos leva a Haguro.

Dou Haguro é um demônio, e é custando que eu afirmo que é no sentido figurativo. Uma das faces mais interessantes da história é mostrar os confrontos laterais que ocorrem entre gangues na região e a primeira aparição do Haguro é uma voadora na face do líder oponente. Após derrotar a gangue e afirmar que não, ele não é um Yakuza - esse é o pai dele, Haguro é chamado de monstro e só replica: “Monstro? Sempre me chamam de monstro. Mas eu sou apenas humano”. Isso muda quando ele encontra a verdadeira forma de Inugami, passando a ficar obcecado com a condição de lobisomem dele a ponto de não conseguir focar em mais nada, além de praticar atos inomináveis durante o mangá inteiro.

Vendo o plot inteiro, a condição humana sob o ponto de vista de Akira, dá a entender que a intenção da história é mostrar que o ser humano é mais animalesco do que qualquer outro ser, predador ou não, que já passou pelo planeta. As cenas extremamente violentas e os abusos a cada quadrinho fazem o leitor se sentir mal com o estado de ser parte dessa espécie, salvo a professora e um dos subordinados de Haguro que ainda possui um certo senso de caráter. E esse senso de bondade e gentileza é esmagado nos dois ao decorrer do mangá, para provar que nenhuma boa ação vem sem punição. A corrupção e a covardia também são fatores recorrentes no mangá, visto que ninguém ousa se opor a Haguro, seja aluno, professor ou diretoria.

Por essa agressão toda, é interessante lembrar que o mesmo pode ser um trigger para quem já sofreu abuso sexual, visto que nada no quadrinho é realmente censurado, então não é aconselhado para pessoas mais sensíveis - isso inclui homens que sofreram essa violência também. O resto é sangue, mutilação e fan-service.

O quadrinho tem uns traços bem feitos, considerando seu estilo, com bastante detalhes de cenário e leitura de contexto - enquanto a professora sempre conta com traços limpos e claros, Haguro é feito com muitas linhas, sombras e distorções em volta como se fosse uma miragem deformada com um rosto que mal lembra um homem. As lutas parecem bagunçadas, mas uma vez que se acostuma, dá pra perceber o quanto são dinâmicas e fluídas.

Como mencionado no início, a primeira parte é rápida, porém a segunda metade fica mais voltada para decisões a serem tomadas - às vezes por personagens secundários - e acontecimentos com outros personagens para induzir o protagonista a agir, o que reduz um pouco o dinamismo. O final também pode ser interpretado como anticlímax com muitas pontas soltas, ou ficar por conta da imaginação do leitor - que esperamos que não seja tão doentia quanto a dos escritores do mangá.

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