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Análise » Branca dos Mortos e os Sete Zumbis


“De Hans Christian Andersen a Edgard Alan Poe, passando por H. P. Lovecraft, Neil Gaiman e os irmãos Grimm, todas essas referências estão enfim reunidas nesta obra de fantasia e mistério, montada a partir da mente genial e perturbada do - nem tão - enigmático Abu Fobiya.”

“São ecos de um reino distante, que no entanto estão, e sempre estarão, mais próximos do que a gente imagina”.

Ao pegar o livro - ao menos na versão da Nerd Books -, você se depara com o trecho acima na contra capa. Escrito pelo autor Eduardo Spohr, o trecho em questão cita muitas das referências que Abu Fobiya se inspirou para contar esta história e ainda é bastante instigante, despertando a curiosidade de todos os que o lêem.

Fruto a princípio da parceria entre o autor Fábio Yabu, ou melhor, Abu Fobiya e o site de entretenimento nerd, o Jovem Nerd, o livro Branca dos Mortos e os Sete Zumbis é uma releitura dos clássicos contos de fadas com muito suspense e terror - ainda mais que os contos originais, eu garanto. Apesar de ter sua primeira publicação em 2012, o livro ainda tem muitas pessoas para tirar o sono - ou seria a vida?

“Você acredita em contos de fada? Não? Bom, alguma coisa me diz que até o fim deste texto você passará a acreditar”.

Falar sobre o enredo de Branca dos Mortos e os Sete Zumbis é uma tarefa um tanto quanto difícil, mas não impossível. Difícil pois o livro é composto por onze contos macabros que são aparentemente muito distantes um do outro. Porém, conforme avançamos na leitura, vemos que estão muito mais próximos do que imaginávamos.

Um personagem do primeiro conto pode ser citado no segundo, o protagonista do quarto pode aparecer como coadjuvante no sétimo e por aí vai. Passado, “presente” e futuro se ligam através dos personagens clássicos nos contos de Grimm e Andersen. Já no segundo capítulo do livro, “João, Maria e os Outros” é possível ver essa interação, porém é no quinto capítulo, “Cindehella e o Sapatinho Infernal” que tudo se torna mais claro.

O autor - ou seu alter ego - Abu Fobiya, criou com este livro não só contos muito bem elaborados e sombrios, como também um vivo - ou não - e complexo mundo onde todos esses contos conseguem interagir. A criação deste mundo ficou tão bem feita que, em um dado momento, temos um gancho na história onde se torna possível fazer certas conexões com a realidade.

Quando isso acontecia em outros livros de contos fantásticos, me desanimava um pouco a continuar, pois a escrita fazia com que a fantasia e os personagens fossem deixados de lado e o foco passasse a ser os eventos e o quão próximo da realidade eles chegariam. Já em Branca dos Mortos e os Sete Zumbis, Fobiya entrega a mesma perspectiva para o livro ao mesmo em tempo que utiliza um dos melhores - e mais agoniantes - contos do livro para auxiliar nesta tarefa.

“Quando numa noite eu lia um tomo interdito
Escrito a sangue sujo em idiomas ancestrais
Ouvi um bater na porta seguido de um grito
Que atirou minh’alma em fossas abissais…”

Todos sabem que para algo ser verdadeiramente bom, não adianta ter uma ótima ideia se ela não é bem executada - bom, ao menos se tirarmos algumas exceções. Aqui, a narrativa é de extrema importância e o autor, sabendo disso, buscou inspiração em vários nomes como Edgard Alan Poe, H. P. Lovecraft e Neil Gaiman para incrementar e dar segmento à sua narrativa.

Sobre o parágrafo acima, é preciso dizer que todo o trabalho com pesquisa e na implementação do estilo dos autores ao livro, caiu como uma luva nos contos. Prendemos a respiração à cada página virada, com o suspense se tornando maior ao mesmo tempo em que o macabro se encontra em expressões como “inominável”, ou “indescritível”, marca registrada do autor H. P. Lovecraft que usa de palavras não muito claras e que deixam a nossa doentia criatividade formar por si só o terror.

No decorrer dos onze contos, Abu Fobiya utiliza diversas formas de apresentar ao leitor suas histórias e seus personagens, inclusive por meio de poemas. O mais interessante na narrativa escolhida por ele é que nem sempre o título do conto revela do que se trata. Temos casos que são óbvios como “Branca dos Mortos”, “Cindehella e o Sapatinho Infernal” ou ainda “Samarapunzel”. Por outro lado, encontramos títulos como “A Confissão”, “O Monstro”, ou ainda “O Fim de Quase Todas as Coisas” que você vai precisar se esforçar um pouquinho mais para acertar o conto que o autor referencia.

Dentre todos os contos presentes no livro, eu realmente me importei com todos. Alguns estão lá apenas como complemento para os maiores, mas isto não diminui a qualidade deles. Das onze histórias, eu deixo um destaque para:

“O Fim de Quase Todas as Coisas”, por expressar em poucas palavras o que é a existência humana e ainda de quebra criar uma bem bolada conexão com personagens que você não esperava encontrar ali.

“A Bela Incorrupta”, é simplesmente sensacional! A descrição feita no conto é tão detalhada que chega a ser agoniante em alguns momentos. Com um desfecho incrível, aqui temos uma boa noção do que Fábio Yabu nutriu em sua mente doentia sob o pseudônimo de Abu Fobiya.

“Cindehella e o Sapatinho Infernal”, foi o primeiro mind-blowing real que tive ao ler o livro. Até a metade do conto, é a clássica história da jovem que vive com a madrasta. Porém, da metade para o final, a coisa toda muda de figura e somos apresentados à uma história com novas perspectivas e um novo desfecho.

“Ainda sois muito bela, mas há alguém cuja beleza superou a vossa. Ela tem os láios vermelhos como sangue, os cabelos negros como as penas de um corvo e a pele branca como os olhos de um defunto”.

Ajudando a dar um clima incômodo - no bom sentido - ao avançar nas páginas, temos as ilustrações de Michel Borges. Todas as imagens são em preto e branco, sendo muitas partes do cenário completamente escuras. Não é preciso olhar por muito tempo para que o leitor perceba que se tratam de ilustrações bastante detalhadas, apesar de num primeiro momento parecer bem simples.

Como dito acima, é nas expressões dos personagens - principalmente em momentos de insanidade -, que as ilustrações de Michel se destacam com seus olhos grande e saltados, a sensação que tive ao vê-las foi de certo desconforto. Claro que é exatamente esta a ideia da coisa toda e funcionou muito bem aqui.

“E, então, o relógio soou a primeira badalada da meia-noite. No fim da décima-segunda, não haveria mais lugar no inferno.”

Lançado inicialmente pela editora Nerd Books em 2012, e posteriormente pela editora Globo em 2013, Branca dos Mortos e os Sete Zumbis em sua versão atual possui 21cm x 14cm, capa em brochura, 200 páginas. No entanto, se você for um sortudo com a versão - agora de colecionador - da Nerd Books, a mesma ainda tem capa dura.

“É uma casa, disse o barqueiro. Coisas inomináveis aconteceram aí. Personagens e feitos que por milênios inpiraram pesadelos. Foram-se seus habitantes, vieram os outros, foi-se a floresta, vieram as cidades, foi-se o mundo, vieram os demônios, foi-se o tempo, veio o nada. E, da era dos homens, essa pequena casa foi tudo o que restou”.

Ler este livro foi sem sombra de dúvidas, uma experiência inesquecível. No começo, a narrativa e as intenções do autor com os contos ainda estavam bastante confusas, porém ao chegar no quinto capítulo, tudo se tornou mais claro e consegui entender o que Abu Fobiya tinha em mente. Com um suspense e terror “indescritíveis”, existe também espaço até para um pouco de humor ao referenciar uma parte do conto à algo que aconteceu com o autor em sua infância. Entre os contos destacados acima, meu favorito é “Cindehella e o Sapatinho Infernal”.

E você, já leu este livro? Não? Então está mais do que recomendado! Se já leu, bom você sabe o que fazer se quiser permanecer vivo...

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