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Análise » As Brumas de Avalon


Seguindo o ritmo setado pelo Dia Internacional da Mulher, desenterramos os quatro livros da série As Brumas de Avalon, por Marion Zimmer Bradley, que nada mais são do que as crônicas arthurianas condensadas pelo ponto de vista de seus personagens femininos publicadas entre 1979 e 1983.


As histórias do Rei Arthur foram descritas de diversas formas, em praticamente todas as mídias conhecidas - inclusive jogos! -, contando com o eu lírico dentro da Távola Redonda ou mesmo seguindo diretamente Arthur em suas lutas para conquistar e manter um reino de paz, defendendo a Britânia dos Anglo Saxões. Isso é o que torna a obra de Marion desconcertante: seguir o que consideramos a tangente dos figurantes.


Os livros seguem principalmente as representantes de Avalon, mulheres que viveram em meio a magia, dentro dos rituais e do culto a natureza, lutando ou se defendendo, não contra os vilões Arthurianos, mas contra o esmagar do cristianismo em cima de tudo que é pagão. Seguem, entre outras, as sacerdotisas como Viviane, a Dama do Lago, representante de Avalon nas decisões que tangem o reino, a amada e odiada Guinevere e Morgana das Fadas.


Mas a primeira história a ser contada é de Igraine, irmã de Viviane  que foi forçada a se casar com Gorlois, o Duque da Cornuália. Criada com a crença na Deusa de Avalon, foi manipulada a se unir a Gorlois contra a vontade por sua irmã a fim de manter uma boa relação política entre Avalon e o reino de Britânia. Ressentida, porém seguindo o que lhe foi passado, Igraine teve que passar pela transição entre o que acreditava e os costumes cristãos que seu marido seguia e deu a luz à Morgana.


Porém, assim que acreditava ter seu destino cumprido, eis que surgem Merlin e Viviane novamente em sua porta alegando que sua missão na verdade era dar à luz ao que seria o rei mais poderoso que já existiu. Só que não com Gorlois, mas com Uther que se tornou o novo rei.

Esse momento já dá âncora aos dilemas que serão tratados por quase todos os personagens das narrativas futuras. Igraine já se considerava cristã, então o peso de trair seu marido conscientemente já havia se formado, sendo que pela sua criação em Avalon isso pouco importaria. E o choque cultural se repete, de novo e de novo durante todos os livros até, como sabemos, um dos lados vencer.


A primeira metade do primeiro livro foca no desenvolvimento de Igraine, porém após o nascimento de Arthur vemos o mundo pelos olhos de Morgana, uma menina mirrada e madura demais para a sua idade que não aceitou a submissão de sua mãe aos caprichos de outras pessoas, indo de bom grado pelas mãos de Viviane à Avalon, onde foi criada para ser sacerdotisa.


Embora Morgana não seja a protagonista o tempo todo, visto que passamos pelos pontos de vista de Guinevere, Lancelot, Viviane e Arthur, dentre vários outros personagens, ela é como a linha que costura toda a narrativa dos quatro livros.


Esteve presente na coroação de Arthur, gerou seu filho Gwydion, se tornou além de sacerdotisa, uma curandeira e, quando Arthur descobriu que ela era sua irmã, passou a contar com a mesma para tomadas de decisões no que cabia relações com Avalon ou no futuro do próprio reino quando Merlin se encontrava ausente. 

Morgana inclusive manteve um romance durante um tempo com Lancelot, mesmo sabendo que o mesmo já se encontrava apaixonado por Guinevere. O engraçado é que ela, criada em Avalon e bem longe de querer algo como casamento, só queria sexo, enquanto Lancelot passou por toda uma crise de culpa e angústia de só ter encostado nela.


E ao contrário do que eu julguei a princípio, essa forma de escrita não isola Arthur e seus cavaleiros, nem qualquer outro personagem relevante das histórias que conhecemos. Como mencionado acima, Morgana teve bastante contato com o rei e outros cavaleiros, bem como Guinevere, que representou o lado feminino do cristianismo e Helena que conseguiu ficar com Lancelot mediante à uma “feitiçaria”. Podemos acompanhar até a vigília necessária e todo o ritual antes disso para que alguém se torne um dos cavaleiros leais de Arthur.


Uma faceta interessante, por sinal, é a mistura de elementos mágicos e céticos durante a narrativa. A feitiçaria citada acima, nada mais é que uma bebida utilizada em uma circunstância específica que causou um determinado comportamento. Porém em outras cenas, é difícil discernir se realmente não houve uma intervenção da Deusa. 

Além disso não poderíamos também considerar uma forma de magia o poder de entrar na mente das pessoas por forma de discurso, de manipulações? Governar um reino pelo backstage? Os livros tratam com bastante naturalidade as relações políticas, uniões feitas para conseguir benefícios e evitar que Avalon seja banida instantaneamente como no caso de Igraine. Nenhum personagem é completamente puro, nem completamente mal - embora Guinevere tenha conquistado um lugar em meu coração que representa o inferno cristão -, só pessoas que seguem tentando se adaptar às mudanças, ou as forçando com bases em suas crenças.


O único desafio real para se gostar dos livros é o ritmo. As mudanças políticas e culturais naquela região demoraram décadas, da migração dos cultos druidas até o cristianismo que vemos hoje e as guerras entre o bretão e o anglo-saxão. Logo, as histórias acompanham a vida inteira dos personagens e seus filhos, se perdendo às vezes ao mencionar fatos muito rotineiros.


Em contra partida, quando alguma violência se faz ela não perdoa ninguém. Várias são às mortes que você não espera - Olá, Martin! - acontecendo de forma rápida, e várias são as ocasiões desagradáveis que você vê chegando, mas espera que alguém salve o personagem de sofrê-las. O que é mais ou menos como a vida funciona.


É uma boa obra para se relembrar essa semana, e um ponto de vista refrescante de uma lenda que juntou milhões de fãs desde seu nascimento.

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