Análise » O Toque da Vampira - Criando Heróis

Últimas Notícias

Análise » O Toque da Vampira


Sempre buscando novos nichos de leitores ao criar personagens que representem minorias, a Marvel se aventurou na estratégia de atrair o público jovem feminino ao lançar duas novels em meados de 2013 apostando em figuras conhecidas pelo público como protagonistas, como Vampira e She-Hulk. No Brasil foram lançadas pela editora Novo Século em maio de 2014.

O Toque da Vampira, escrito por Christine Woodward, segue com esse experimento ao retratar a juventude de Anna Marie após descobrir o que sua pele causava em outros seres vivos e fugir de casa para sobreviver em uma cidade maior, onde menos pessoas prestariam atenção em uma adolescente coberta da cabeça aos pés em roupas.

O enredo tenta buscar a essência da Vampira nesse início. Cody - primeiro namorado da heroína nos quadrinhos - faz sua aparição em um flashback, beija a protagonista e entra em coma exatamente como os fãs que conhecem a história sabem que aconteceu - nenhum spoiler, suponho. Nenhuma história com mais de 30 anos é ameaça de spoiler. Ao fazer isso a faceta mais conhecida do seu dom mutante é revelada: a absorção de memórias e do ‘eu’ do absorvido.

No tempo presente da história, Vampira, já mais amadurecida pelo tempo passado na cidade grande, com um emprego onde tem menos chance de lidar com outras pessoas, encontra um homem que se veste de forma parecida com ela. Empolgada ao pensar que no mundo existem mais pessoas com a mesma “maldição”, Vampira tenta se aproximar do estranho que a ajuda quando a mesma passa por provações no emprego. Tendo que fugir por um acidente causado por sua mutação, Vampira se junta a James - yep, sem Gambit, ladies and gentlemen - numa viagem pelo território americano buscando um lugar seguro para ficar.

Quando apresentada dessa forma, a sinopse parece interessante e algumas cenas realmente podem empolgar o leitor, mas a sensação que se passa é de que se trata de outra adolescente que não a mutante Vampira. Os poderes estão lá, como também está o sotaque sulista e pouco culto da personagem, porém, talvez por tentar mesclar o que conhecemos dos filmes com o que ocorre nos quadrinhos, temos uma pessoa genérica que poderia ser qualquer outra personagem sem interferir no rumo geral da história.

Como pontos que lembram a personagem além do óbvio, a agressividade inicial da Vampira é bem familiar. Considerando que ao se isolar fisicamente das pessoas a mesma tem que se isolar emocionalmente a fim de continuar com a vida normalmente, a violência inicial é coerente. Porém essa familiaridade dura pouco. A Anna Marie do livro mostra muitas inconsistências quando comparada com a dos quadrinhos, começando pelo fator confiar no próximo.

Em O Toque da Vampira temos uma personagem que confia plenamente no espaço de uma semana em um estranho que ela nem sabe o nome verdadeiro ou o motivo pelo qual ele está sendo também perseguido. O romance entre eles é extremamente forçado e não gera uma química legal, mesmo com o conflito da mutante não poder tocar o ser amado sendo o foco - existem diversas histórias da Vampira que serviriam de base para um desenvolvimento legal, mas não foram aproveitadas aqui. O próprio relacionamento com o Cody foi esquecido. Mesmo que a Vampira fique a cada cinco capítulos procurando notícias sobre o estado do mesmo, a empatia que a gente espera de amigos que se conheceram desde muito novos não se encontra na novel.

James, ou Touch como ela o chama posteriormente é um personagem mais interessante. Não fica claro se o mesmo é mutante, alien ou qualquer outra coisa até perto do final do livro. Tem alguns dispositivos interessantes - lê-se: convenientes - e possui conhecimento sobre instituições que cuidam de jovens superdotados, porém a personalidade é bem instável, uma hora infantil e no momento seguinte distante e perigoso. Padrão de literatura YA* que vemos em livros como Divergente e Cidade dos Ossos.

Entretanto, nenhuma dificuldade inicial para aceitar os personagens importaria se tivéssemos outras figuras do selo Marvel no plot. Embora Touch explique que no lugar de onde vem existem as instituições que cuidam de pessoas como Vampira, não se menciona ninguém que caminhe pelo universo Marvel além das famílias da mutante e do Cody. Isso pode atrair leitores que não conheçam a história do personagem e que gostem desse tipo de narrativa o que vale um ponto pela intenção inicial do projeto. Porém, se o mesmo novo leitor buscar um maior conhecimento sobre a heroína, receberá um choque ao perceber que não encontrará uma extensão do que leu e sim uma realidade nova com uma atmosfera bem diferente.

Se, como eu, o futuro leitor já conhecer um pouco da história e esperar um mundo excitante, por exemplo, na qual a Vampira se encontra com a Sina e a Mística no que seria a fase com maior potencial da personagem e justamente a menos explorada, pode ficar nos quadrinhos mesmo. Além de Carrie, a tia severa da Vampira e dos pais de Cody, nenhum outro individuo tem relevância dentro da narrativa.

Como livro de ação, temos algumas cenas que possuem um certo apelo. Os poderes da Vampira são tão controversos a cada escritor quanto o fator de crescimento do cabelo do Wolverine, então dentro dessa realidade ela consegue absorver mais do que humanos e animais comuns o que rende alguns boosts de habilidades nos momentos de desespero. Digamos que ela teria potencial para se tornar uma deusa se alguma aparecesse dando bobeira por aí.

Os tais momentos de desespero são os únicos em que ela recorre aos seus poderes, mas são caos dentro do controle, nada que realmente cause pânico no leitor. A frustração sexual da Vampira nesse caso é mais desesperador do que as cenas de luta mais fervorosas do livro.

Compensando a falta de personagens, temos uma gama muito grande de cenários. A descrição dos caminhos passados pela dupla durante a fuga são bem detalhados, com sensações descritas bem o suficiente para você se sentir no topo do Grand Canyon quando o mesmo é mencionado.

A forma de escrita da autora é rápida embora a história não seja, pecando apenas no comprimento dos capítulos quando pensamos em estruturação.

A diagramação é bonita, a capa também e o tamanho da letra é agradável, embora a fonte não facilite quando pensamos no tamanho dos capítulos - cerca de 30 páginas cada. A capa, por sinal, é o que já poderia ter alertado sobre o fato da personagem ser puxada pelo que conhecemos do filme.

Quando vemos o histórico de Woodward conseguimos aceitar um pouco mais o clima de romance adolescente que o livro proporciona - embora não o suficiente para que seja usado um personagem tão conhecido. Christine Woodward é o pseudônimo de Nina de Gramont e com esse título só possui O Toque da Vampira como destaque. Ao verificar as demais obras de Nina, sendo a mais famosa The Boy That I Love, não tinha como fugir muito da temática.

Seria, talvez, um livro bom, se fosse protagonizada por outra personagem e com outras restrições em relação aos poderes da mesma, porém a expectativa gerada foi muito alta em relação ao que realmente foi coberto da Vampira que conhecemos.

Criando Heróis desenvolvido por Templateism.com copyright © 2014

Tecnologia do Blogger.