Análise » Irmãs de Sangue: Um Conto Vampírico - Criando Heróis

Últimas Notícias

Análise » Irmãs de Sangue: Um Conto Vampírico

Ana começou a erguer a cabeça levemente, revelando os olhos vermelhos como brasas e as presas que saltavam da boca.
Susie deu um grito mudo e Lúcia saltou para trás, indo encostar na parede. Lágrimas desciam dos olhos enrubescidos quando ela finalmente conseguiu falar:
— Vocês ainda vão me amar?

O que você faria se não houvesse limite para o que você pudesse fazer?

É com esta pergunta que nossa protagonista, Ana, se depara em Irmãs de Sangue. Ao receber o “dom” da vida eterna, Ana se vê entre os desejos e receios de Mikahil, seu mentor, a vampira Elise e, porque não, suas próprias vontades.

Sabe a sensação de ter uma ideia e precisar expressá-la de alguma forma? Bom, foi isso o que aconteceu com o autor Ricky Nobre. Tudo começou em 1994 quando, após participar de um live action de vampiros e conversar com um amigo sobre um possível filme do gênero, surgiu, talvez de forma quase despretensiosa, a ideia por trás de Irmãs de Sangue.

De lá para cá, muita coisa aconteceu e muito do que hoje é visto no livro de fato nem sequer existia. Primeiramente, a intenção era a de fazer um filme e não um livro. Em segundo lugar, o nome - sempre ele - foi uns dos que sofreu alterações passando de “Smells Like Teen Spirit” - música da banda Nirvana e que serviu de inspiração para a criação da história - para “Irmãs de Sangue”. Todos os detalhes você pode conferir no hotsite do conto aqui

Chegando enfim em sua versão mais recente em 2004, escrito de forma maestral e lançado sob o selo da editora Linhas Tortas, vamos falar aqui de um conto vampírico de muito antes dos vampiros começarem a brilhar no Sol.

A história se passa em 1993, no Rio de Janeiro e acompanha a adolescência e as descobertas de Ana, nossa personagem principal. Como a maioria das garotas de sua idade, Ana quer curtir sua juventude com os amigos e aproveitar ao máximo essa fase frequentando lugares como Dr. Smith, uma casa de festas onde o heavy metal, hard rock e o rap reinam soberanos.

Sempre ao seu lado estão as jovens Lúcia e Susie; tipo amigas inseparáveis. Porém, caso a trilha sonora mais dark não o tenha feito lembrar ainda, isso é um conto vampírico e logo são introduzidos dois vampiros ao enredo: Mikahil, um vampiro bem antigo e sua amada Elise. O que os levou àquela casa de festas em específico é fácil dizer.

Na sociedade vampírica apresentada no livro, as regras dizem que um vampiro tem o direito de “criar” um novo de sua espécie a cada cinquenta anos; Mikahil, no entanto, não o fazia havia trezentos. Devido à más experiências passadas, o vampiro decidiu que não usaria deste “benefício” tanto quanto poderia; era desgastante, demorado e muitas vezes sofrido. Porém, munido de uma nova ideia, ele acredita que utilizando uma jovem - talvez devido ao fato de terem sido criadas para aceitar com facilidade ordens e seguir exemplos - tudo possa dar certo desta vez. A jovem escolhida para a tarefa é Ana.

Após passar pela transformação, resta agora à vampira Ana tentar entender como funciona sua nova “eterna vida” nesta sociedade cheia de regras “para onde não se escolhe entrar e de onde jamais se sai vivo”. Ana precisa ainda ser forte para dizer adeus à sua família e principalmente para suas irmãs, porém… Será que ela consegue?

Quando o assunto em um livro são os personagens, o grande desafio é fazer com que o leitor entenda suas motivações e os aceite. Se no meio do processo ainda conseguir fazer com que se identifiquem com o protagonista, é um baita de um bônus. Com este conto, Ricky Nobre conseguiu mostrar o melhor e o pior de cada um deles de uma maneira tão inusitada, que você realmente compra os personagens.

Dentro de todas as relações que encontramos em Irmãs de Sangue, eu preciso destacar a mais forte e mutável - não posso revelar mais detalhes por conta de spoilers - delas, justamente a relação das “irmãs”. Ana, Lúcia e Susie são tão próximas e tem uma amizade tão forte que você se vê forçado a querer ler o que acontece quando Ana passa a ser uma vampira. Como as duas irão reagir ao descobrir a verdade? O que vão pensar? Vão aceitá-la?

Outra relação muito bem bolada e da qual sinto falta nos “seres imortais” dos dias de hoje é o amor e ódio de Mikahil para Elise. Ah, que relação bacana de ler… O casal, que possui um relacionamento bastante aberto e são bissexuais, às vezes agem como irmãos, companheiros, amantes apaixonados, mestre e discípula e por aí vai…

Porém, se tivesse que escolher um personagem como favorito, eu ficaria com o líder do Conselho Mestre, Zoltan Pabst, porque… Bom, porque ele é "bonitinho, senta em cima da mesa, balança as perninhas, dá um risada e as pessoas fazem o que ele quer”. A resposta pode ser uma brincadeira, mas ele é um grande exemplo de que personagens que você não levaria à sério em outro livro, aqui são bastante perigosos!

Falando sobre a narrativa, ler Irmãs de Sangue é como ver um filme: é rápido, é empolgante, é grandioso e  emocionante.

Sobre a rapidez, me refiro não só à quantidade de páginas - ao todo, são 144 -  quanto ao ritmo dado por Ricky. A linguagem é bem fluida e repleta de gírias, então você não vai encontrar aqui diálogos muito pomposos; afinal, são jovens conversando.

É empolgante quando você lembra que a história se passa no Rio de Janeiro, um lugar bem mais próximo da nossa realidade e que quando protagoniza trechos de lutas épicos, como a sequência no meio de shopping ou no meio de uma rua, nos remetem automaticamente à cenas de filmes. O que me leva à parte grandiosa da coisa toda: levando em conta o mundo em que tudo acontece, o conto, por mais breve que seja, causa uma grande mudança na vida de todos naquela cidade.

Sobre a última característica do livro, deixo aqui dois desafios: o primeiro é o de não se emocionar com o final e o segundo é tentar prever ele. Eu fui enganado pelo menos umas três vezes durante minha leitura! Vamos admitir, livros que surpreendem hoje em dia são pouquíssimos!

O livro possui 14cm de largura por 21cm de altura, formato médio, acabamento em brochura e o lançamento mais recente é de 2004, pela editora Linhas Tortas. O preço é bastante em conta e você pode encontrar o produto a partir de R$ 16,00.

Lembro que a reação que tive ao terminar o livro foi de “é só isso?”, não por causa da história em si, mas da sensação terrível e sufocante que só a última página de um ótimo livro pode causar no mais inocente dos leitores. Minha opinião? Vale a pena sim conferir! No entanto, absorva este produto não só como um ótimo livro, mas como uma incrível fonte de questionamentos que de fato você se verá fazendo depois de concluir.

Criando Heróis desenvolvido por Templateism.com copyright © 2014

Tecnologia do Blogger.