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Jogo Perigoso fora lançado originalmente em 1992, e publicado no Brasil pela primeira vez nos anos 2000. É um Thriller psicológico, narrado de um modo que só poderia ser feito pelo Mestre Stephen King.

Diferente dos horrores viscerais e explícitos que King andava escrevendo na época, Jogo Perigoso - Gerald's Game no original - se desenvolve de uma forma completamente diferente. Aqui somos intimamente apresentados à uma mulher que precisa lutar com todas as suas forças para sobreviver ao mais inimaginável dos pesadelos. Aqui, King nos apresenta uma narrativa entrecortada por flashbacks e pensamentos, nos arrebatando para dentro da mente de Jessie, a protagonista. Fica óbvia a intenção do autor em levantar uma consciência feminista no leitor, através de diversas metáforas e fatos ligados ao enredo

O livro se inicia com Jessie e seu marido, o advogado estressado Gerald, que resolvem passar um final de semana numa casa de campo afastada. Tempo este que seria aproveitado com muito sexo, numa espécie de reconciliação sexual silenciosa para o casal. Gerald, que sempre tivera fetiches com sadomasoquismo, decide algemar a esposa na cama. O casal já havia feito isso antes com panos e lençois, mas nunca com uma algema. Inicialmente, Jessie resolve entrar no jogo, assim como fizera com tudo na vida, nunca disposta a dar voz aos próprios desejos.

Entretanto, assim que o marido começa a se rastejar por cima da esposa, Jessie percebe que não quer mais aquilo. Começa a protestar veemente para que Gerald pare e a solte, obviamente incomodada com a situação de submissão. Gerald, talvez acreditando que a esposa estivesse apenas jogando com ele, interpretando uma moça indefesa ou, o que é mais provável, sabendo que ela realmente queria parar, mas muito excitado com a situação e satisfação de seu fetiche para dar ouvidos, continua avançando sobre a esposa algemada e vestindo apenas a parte de baixo de suas roupas íntimas. Aqui, o jogo de Gerald prova realmente ser um jogo perigoso, quando Jessie o chuta na virilha, o que, aliado à má forma do marido e a alta pressão cardíaca das atividades recentes do mesmo e o susto inesperado, o levam a ter um infarto e a morrer ali mesmo.


Pela primeira fazendo sua vontade prevalecer, Jessie recebe como prêmio um marido morto e o algemamento à uma cama. O livro então se desenvolve nos próximos dois dias, em que companhamos as alucinações, sede e outras coisas muito piores as quais Jessie é submetida enquanto tenta se livrar de seu aprisionamento.

Somos ainda apresentados à Prince, um cão faminto abandonado na floresta por seu dono que não queria pagar um taxa para mantê-lo, que entra pela porta dos fundos da casa, que o casal havia esquecido aberta em sua pressa para iniciarem o final de semana e por conta da privacidade que o isolamento daquele lugar oferecia, algo que viria a se tornar um dos maiores arrependimentos de Jessie. O medo de que o cão a ataque assim que ele entra no quarto é substituído por um alívio culposo e sujo assim que o mesmo a ignora e começa a devorar parte do defunto Gerald, numa narração extremamente descritiva pelo autor, tanto do ponto de vista de Jessie como do ponto de vista do próprio cão, que acaba visitando Jessie durante as tardes.

Ainda temos "O Caubói do Espaço", apelido nada sadio que Jessie dá à assustadora figura de um homem deformado que aparece no canto do quarto, olhando silenciosamente para ela com olhos apáticos, que, em contra partida ao cão, apenas a visita durante as noites. Ele somente fica à observá-la, sem dizer nenhuma palavra, praticamente imóvel. Se ele realmente existe ou se é apenas uma alucinação, a resposta só vem bem mais tarde no livro.

Jessie começa a questionar a própria sanidade, e como forma de se manter sã - ou não - começa a intencionalmente ouvir e responder vozes em sua cabeça, que tomam formas distintas, e são um ponto alto da narrativa. A primeira, chamada de "Chega-de-Papo" pela personagem, é a voz de uma antiga amiga da faculdade de Jessie, Ruth, que manifesta a parte de Jessie que não quer abaixar a cabeça e é dona de si mesma e revoltada com o mundo. Também ouve a voz Nora Calligham, sua ex-psiquiatra a aconselhando durante a narrativa.
 Ainda há a "Esposinha Perfeita" manifestação da personalidade mais vigente até então em Jessie, que representa o ideal da meiguice e perfeição, ainda que isso inclua abaixar a cabeça e não se impor; e por fim, "Bobrinha", manifestação da personalidade infantil de Jessie, cheia de inocência e ao mesmo tempo, portadora de traumas e inseguranças, o maior deles advindo de um abuso que Jessie sofreu ainda criança pelo pai, e que Jessie havia reprimido quase que completamente até o incidente do início do livro. Ainda existem outras vozes menos proeminentes na mente de Jessie, que às vezes devaneia, em longas conversas consigo mesma. 

Aqui, com uma atmosfera extremamente claustrofóbica, somos quase obrigados a passar pela mesma angústia e sofrimento que Jessie, através de uma forte empatia estabelecida pelo autor. Uma das passagens onde isso fica bem claro é já na primeira metade do livro, com Jessie presa, quando somos torturados junto à personagem com um copo de água que fora deixado em cima da estante ao lado da cama, com cubos de gelo tilintando sob a tarde quente, quase ao alcance, mas ao mesmo tempo, impossível de ser obtido. A passagem é tão bem escrita e angustiante que tive que parar de ler e buscar um copo de água, tamanha a sede e o desejo que o autor me despertou pelo copo na estante.

Enfim, falar mais que isso seria estragar a imensa experiência, cruel, mas positiva que foi ler esse livro. Mais que apenas uma carta de amor às suas fãs feministas e/ou mulheres, Jogo Perigoso é um verdadeiro exercício de superação e empoderamento, tanto mental quanto físico, para pessoas de qualquer gênero.

Em uma rápida pesquisa no Google, a edição mais recente do livro, lançada em 2013 pela Suma das Letras, pode ser encontrada num valor próximo a R$30,00.

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