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Análise » Sandman: Prelúdios & Noturnos


“Pela centésima vez, desde que recuperei a algibeira, eu toco a areia dentro dela. Ela escorre por entre meus dedos. Sinto cada grão, inesgotável. Infindável como eu, como os poucos da minha espécie. Infindável… tal qual a noite”.

O ano era 1967, quando um jovem chamado Neil Richard Gaiman, de apenas sete anos recebeu sua “caixa de encantos”. A caixa em questão era feita de papelão e possuía diversas histórias em quadrinhos da DC e da Marvel. Dentre todas, sua favorita era “Justice League of America 47º”.

Nela, os heróis da Terra 1 e 2 lutavam para impedir o vilão conhecido como Anti-Matéria de destruir o planeta. Ao ler aquela revista, Gaiman nutriu uma estranha atração pelo tímido personagem Sandman da Era de Ouro. Eram suas habilidades? Ou o conceito? Não sabemos. Porém, o garoto cresceu e se tornou repórter, escritor e roteirista de quadrinhos, onde assina obras como “Deuses Americanos”, “Coraline”, entre outras.

Enquanto fazia o primeiro rascunho de “Orquídea Negra”, o rapaz realizava anotações para uma possível adaptação de Sandman. Para sua surpresa, Karen Berger (editora americana da DC) solicitou uma nova roupagem para o personagem e deu carta branca para o projeto. Tudo o que ele precisava manter era o nome. O resto era por sua conta e, posso afirmar, não decepcionou.
Vamos falar sobre “Sandman: Prelúdios & Noturnos”, obra que marcou o recomeço do personagem nas revistas.

“Jogo areia nas águas escuras. Os grãos queimam enquanto caem e me trazem de volta um passado distante… Quando meu rosto era altivo e os olhos cheios de orgulho. É hora de enfrentar o abismo. É hora de reclamar o que me pertence.”

Roderick Burgess era um homem mau, fútil e presunçoso. Para ele, não só bastavam suas riquezas ou seu posto de líder da “Ordem dos Antigos Mistérios”. Roderick queria alcançar a imortalidade. Em 1916, ele concebeu um incrível e audacioso plano para capturar a Morte.

Utilizando de uma invocação milenar, Burgess trouxe não a Morte, porém seu irmão mais novo, um enfraquecido Sonho (também conhecido como Sandman ou Morpheus). Do ser que no círculo repousava, foram removidos todas as roupas e artefatos. Entre eles haviam: um capacete esculpido em osso, um pedra de rubi e uma bolsa de couro.

Aprisionado em uma jaula de vidro e sem ar, Sandman passaria décadas assim e é neste estado em que encontramos nosso personagem, seguindo em sua jornada para a libertação e recuperação de seus artefatos.





O primeiro ponto que me chamou a atenção, foi o enredo. Logo no “Capítulo 01: O Sono dos Justos” quando é capturado até sua fuga, o ritmo em que são apresentados os acontecimentos é muito conciso. Em nenhum momento a história se estica ou encurta mais do que deveria e tudo o que nos é apresentado possui um motivo para tal.


Em oito capítulos muita coisa acontece e todas possuem uma profundidade que chega, em alguns pontos, a ser bonita. Como quando Sandman desafia o demônio Choronzon para reaver a posse do capacete. O duelo, travado no lar de Lúcifer, termina de maneira impressionante.

Por outro lado, em diversos pontos ela é fria e pesada, provocando reações estranhas nos leitores, como no “Capítulo 06: 24 Horas” onde o Doutor Destino (no original, Doctor Destiny e não o Doctor Doom da Marvel) com o rubi de Sandman, resolve por em prática seu plano de despertar nas pessoas seus desejos mais insanos e cruéis, começando por uma pequena lanchonete e a experiência é… Terrivelmente chocante.

"Sandman: Prelúdios & Noturnos” é uma obra para adultos e capítulos como este, dizem definitivamente o porquê.

Outro ponto, que se mostra forte nesta obra, são seus personagens. É de surpreender que um arco tão pequeno, conte e mostre tanto dos personagens como este aqui. Conforme citado, Gaiman poderia mudar tudo, exceto o nome; e foi isso que ele fez.

Sandman agora é um dos Perpétuos, manifestações antropomórficas de aspectos comuns a todos os seres vivos. Os sete perpétuos são: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio*. Eles não são deuses, e sim entidades que vão além deste ou de qualquer outro conceito. Sem eles, o universo nunca poderia se manter coeso.

Apesar de toda a mudança em sua origem, Sandman faz claramente parte do universo DC e personagens como John Constantine (de quem pretendo falar em breve), os heróis da Liga da Justiça e o vilão Doutor Destino aparecem com mais ou menos destaque. Há ainda uma referência ao antigo Sandman vivido por Wesley Dodds.

De todos, vale um destaque ainda maior para o Sonho, com seus monólogos profundos e cheios de sentimento e para sua irmã Morte, pelo melhor choque de realidade que já vi até agora. Inclusive, o capítulo em que os dois se encontram é sem dúvidas o melhor do arco. Vale também uma menção à mente doentia do Doutor Destino, que começou quietinho e bobo e terminou se mostrando bastante perturbador.

Falando agora sobre a arte, infelizmente me vejo obrigado dizer que os traços de Sam Kieth e Mike Dringenberg não se destacam como um dos melhores. A dupla, por vezes erra a proporção dos objetos e personagens, os tornando maiores ou menores inclusive na mesma cena.


Um claro exemplo disto é o rosto de Sandman, que em determinados quadros assume um tamanho três vezes maior. É bom deixar claro que a arte não chega a ser horrível ou a atrapalhar a leitura, porém é fácil notar que faltou um pouco mais de cuidado (ou você pode simplesmente assumir que essa é a ideia da história).

Com um enredo criativo e personagens cativantes, Prelúdios & Noturnos é um ótimo início para um Sandman que permaneceu tímido por muito tempo. O melhor da mente criativa de Neil Gaiman, com um personagem bastante peculiar e uma arte que apesar de não ser das melhores, ajudou a conceber o visual para este mundo. Esta é definitivamente um obra que merece ser visitada por todos.

No original em inglês, todos começam com “d”: Destiny, Death, Dream, Destruction, Desire, Despair e Delirium.

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