Crítica » Guardiões da Galáxia - Criando Heróis

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Crítica » Guardiões da Galáxia


O ano de 2013 pode ser considerado fraco para a Marvel. Apesar do sucesso de bilheteria em “Homem de Ferro 3”, tanto este quanto “Thor 2: O Mundo Sombrio” são considerados filmes fracos pela crítica especializada e pelos fãs. Porém, este início morno da famigerada segunda fase do universo cinematográfico visionado pelo estúdio foi apenas um prelúdio, um prato inicial de sabor meio amargo que só conseguiu deixar o que veio depois ainda mais saboroso!

“Guardiões da Galáxia” foi o segundo filme dos estúdios Marvel a ter sua estreia em 2014, ano este que já havia sido marcado pelo impecável “Capitão America 2: Soldado Invernal”. Baseado numa equipe obscura de heróis dos quadrinhos criada em 1969 e ressuscitada em 2008 (com uma formação mais próxima à do filme) e dirigido por James Gunn, que não emplacava nenhum sucesso nos cinemas desde 2004 com seu remake de “Dawn of the Dead” e “Scooby-Doo 2: Monsters Unleashed” (em português “Madrugada dos Mortos” e “Scooby-Doo 2: Monstros à Solta”), o filme soava como uma aposta muito arriscada dos mesmos estúdios que transformaram o Homem de Ferro, um super-herói de segunda linha apenas levemente conhecido do grande público, no pop star que temos hoje.


Mas se essa aposta não tivesse sido feita, teríamos um mundo definitivamente um pouco mais triste hoje. Ou deveria dizer, uma galáxia?

O sucesso do filme, tanto de público quanto de crítica, é inquestionável, e prova que a Marvel amadureceu seu processo de criação. Guardiões da Galáxia conseguiu superar minha hype, e olha que isso não é pouco! Fomos assistir já tão empolgados que o mais provável é que saíssemos todos desapontados da sessão de cinema, mas adoramos! A Marvel não deixou a peteca cair.

Servindo de contrapartida para o já citado Soldado Invernal, que se tornou o filme mais sério do estúdio até então, Guardiões da Galáxia chuta o balde e tenta te vender uma história que não se leva a sério em nenhum momento, o que só beneficia o tom geral do filme. É um filme calhorda, pastelão mesmo, além de extremamente simplista. E também apresenta cenas que se configuram as mais incríveis e genuinamente empolgantes que eu tive o prazer de assistir no cinema nos últimos quatro ou cinco anos.

A fotografia do filme é espetacular. Apesar de seguir o mesmo padrão dos demais filmes da segunda fase, com cores e tons mais escuros, consegue apresentar uma identidade visual própria e particular, com misturas de cores que não podem ser vistas em nenhum outro filme da franquia até então. Ângulos de câmera perfeitos e que nunca exigem do telespectador uma visão de águia para entender o que está acontecendo nas cenas de ação (um certo Michael Bay poderia aprender com a Marvel, certamente).

A trilha sonora é outro trunfo do filme, e talvez, o maior deles: Ela se integra intimamente ao enredo e às cenas no filme, criando uma correlação única e muito interessante. Quase toda composta por músicas de bandas dos anos de 1970 e 1980, as músicas embalam as mais diversas sequências numa dinâmica que lembra um musical, onde o ritmo dita a ação e a letra representa o que vemos na tela. Sempre que ouvimos uma canção no filme, a mesma na verdade está sendo tocada no toca-fitas de Peter Quill (Chris Pratt), única lembrança de sua mãe, falecida quando ele ainda era uma criança e vivia na Terra.

A Marvel conseguiu muito bem dosar o drama e a comédia nesse filme, de modo que raramente uma ou outra parecerão forçadas. As piadas estão um pouco mais maduras, cínicas e espertas. Temos até uma piada com sêmen!


Pois é, ficamos todos chocados.
Enquanto Peter Quill é o personagem mais destacado do filme e, como único humano, serve como ponte entre o telespectador e os demais personagens, é difícil realmente dizer quem é o principal. Todos os Guardiões protagonizam uma ou mais cenas, e o enfoque do filme está na relação entre eles, inicialmente adversa, e como esse grupo de desajustados vem a se tornar os defensores interplanetários que dão nome ao filme. E aqui o enredo brilha de verdade conseguindo aquele efeito “Vingadores”, só que em apenas um filme.

Quase todos os personagens principais não são exclusivamente unidimensionais, sempre apresentando uma faceta a mais, o que contribui para o seu estrondoso carisma. Você realmente compra a ideia dos personagens, e, de modo geral, acaba gostando de todos.

Rocket Racoon e Groot (dublados por Bradley Cooper e Vin Diesel, respectivamente), uma dupla de caçadores de recompensa, renderizados totalmente em gráficos CGI de encher os olhos, são extremamente carismáticos. Provavelmente vão apelar muito para as crianças (sejam elas interiores ou não) do público, com suas personalidades divertidíssimas e seus visuais mirabolantes. Senão conseguir se encantar pela magia de uma árvore gigante alienígena e um guaxinim falante, tem algo errado contigo. E Bradley Cooper faz um trabalho especial na dublagem de Rocket, roubando a cena por diversas vezes durante o filme. Até o Vin Diesel, com sua única frase, consegue exprimir os mais variados sentimentos.

Gamora (interpretada pela belíssima Zoe Saldana) e Drax (o brutamontes Dave Bautista) apresentam o lado mais sério do grupo. Gamora é considerada a mulher mais perigosa do universo, e sendo a filha adotiva de um dos vilões da trama, é tratada inicialmente como uma ameaça, até que suas verdadeiras intenções são reveladas e ela inicia uma parceria improvável com Quill. Já Drax, o destruidor, é um brutamonte que, ao ter sua família assassinada pelo vilão, inicia uma busca por vingança que o leva a encontrar os demais personagens. Entretanto, ambos os personagens apresentam momentos que se distinguem do que inicialmente se espera dos mesmos, seja Gamora com seus momentos de dúvida e fragilidade em cenas mais dramáticas, ou Drax com seus momentos de inocência quase infantil em cenas de pura comédia, algo que contribui para com a correlação entre espectador-personagem.

O Senhor das Estrelas, então, já é meu personagem favorito do universo cinematográfico da Marvel (pelo menos, enquanto um certo Doutor não dá as caras). Chris Pratt é adorável no papel, interpretando com maestria o charlatão charmoso de coração grande que adora referenciar ícones da cultura pop dos anos 1970, conhecido como Peter Quill.


Como leitor ávido dos quadrinhos dos guardiões desde 2009, é importante alertar que alguns fãs, em especial os mais xiitas, podem se decepcionar um pouco. As origens dos personagens no filme divergem das originais em diversos pontos. A formação da equipe se dá de forma totalmente diferente também. Entretanto, tenho que confessar que eu adorei as mudanças!
 
A maioria das modificações e omissões que foram feitas no filme fizeram com que os personagens soassem mais coesos e concisos dentro do universo estabelecido pelo mesmo.
Não sei se a origem de Drax como humano, ou o passado de Groot como invasor da Terra ou mesmo o passado mal explicado de Nebula (uma das vilãs da trama) como neta autoproclamada de Thanos, dentre outros, se encaixariam bem na proposta e narrativa do filme.  E nem vou comentar da origem de Rocket Raccoon aqui, só vamos dizer que a omissão da mesma no filme foi um favor ao personagem.

Apesar disso, é importante frisar que, enquanto suas histórias e origens diferem, eles carregam a quintessência de suas contrapartes nos quadrinhos. Nesse ponto é quase como se os personagens saltassem das páginas direto para a tela.

A maior ressalva talvez seja Gamora. Nos quadrinhos ela é conhecida como a mulher mais mortal da Galáxia. Uma assassina moldada por Thanos, implacável, destrutiva, e sem nenhum momento de fraqueza.

Já a Gamora no filme protagoniza algumas cenas de extrema fragilidade e sensibilidade que em nada condizem com a personagem original. Mas não se enganem, a Gamora dos cinemas ainda chutaria os quadris de todos vocês!



Uma vez que o foco do filme está nos personagens principais e seu desenvolvimento pessoal e como grupo, vilões e enredo, apesar de em maior ou menor escala bem escritos e desenvolvidos, são relegados à segundo plano. O que poderia ser um defeito, não fosse a maestria com a qual os personagens são apresentados.

Dentre os vilões, Ronan provavelmente é o mais fraco. Apesar do visual bem construído, não convence tanto quanto a sua motivação. No fim, ele é apenas uma desculpa de vilão, secundário e desimportante para o todo, só que colocado numa posição principal. Lee Pace até tem uma boa interpretação, mas fica a sensação que um personagem relativamente importante nos quadrinhos como ele poderia ter sido usado de melhor forma.

Já Nebula, brilha bem mais. Karen Gillian é excepcional no papel da mesma, e convence bem mais que Ronan. Aqui só fica a ressalva de que, apesar da premissa empolgante da relação entre Nebula e Gamora, ambas filhas adotivas de Thanos, essa empolgação nunca realmente é sanada. A cena final entre as duas é breve demais. Espero sinceramente que possamos ver mais dela num futuro filme.

Thanos, mesmo com sua breve aparição, ainda assim mostra que é o vilão principal. Aparência impecável, em toda a sua majestosa presença, Thanos impõe respeito. A semelhança e voz de Josh Brolin no papel do titã só trazem benefícios ao personagem. Prevalece a sensação de que Ronan só foi usado nessa película para resguardar Thanos para algum filme futuro.

A Marvel definitivamente conseguiu entregar um filme, que apesar de não perfeito, é ainda melhor que o esperado, criando heróis (heh!) que em nada devem para aqueles outros, mais famosos, que já estão imortalizados nos filmes anteriores dos estúdios. Não só vale à pena conferir, como também é imperdível, seja você um fã de quadrinhos, entusiasta de Sci-fi’s ou mesmo um saudosista dos anos de 1970.

   Aproveita que está aí de bobeira e venha ouvir a trilha sonora do filme!



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