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Análise » A Mão Esquerda de Deus


A Mão Esquerda de Deus. Já é um título forte por si mesmo e só consegue dar uma leve sensação do que se trata o livro, porque o mesmo é um pouco mais sinistro. Lançado em 2010, pelo escritor Paul Hoffman, não foi uma obra originalmente voltada para o público mais jovem, mas esse foi o mais atingido pela falta de sutileza da história. E que história.

Thomas Cale é um garoto por volta dos 14 ou 15 anos que vive em um lugar chamado Santuário dos Redentores, em uma Idade Média alternativa. Ele aprendeu desde que chegou nesse lugar, aos cinco anos, a montar estratégias de guerra, lutar, ter resistência e principalmente, matar. E ser o melhor fazendo isso, como um Wolverine mirim, só que com os sentimentos ainda mais lacrados.

Como o próprio autor menciona no livro, o Santuário não tem nada de santo, muito menos de redentor. É uma espécie de fortaleza prisão onde são admitidos garotos de até nove anos para serem
treinados cerca de doze horas por dia para formar um exército. Para que serve o exército não é mencionado no livro e os próprios garotos quando sobrevivem até uma idade mais questionadora, acham que lutam pelo bem, para extirpar o mal do mundo. Embora por trás da existência dos acólitos haja toda uma trama política que o próprio protagonista não entende.

Vou tentar resumir os pontos que me chamaram atenção no livro sem dar spoilers, mas é meio difícil. De cara já temos o ambiente do santuário que é muito sombrio e cheio de regras para os garotos que ali chegam. Eles são tratados para não ter sentimentos, inclusive manter amizades é proibido, tudo para evitar atitudes subversivas. Não sabem sequer o prazer de comer, pois tudo que é dado a eles é tão nutritivo quanto inversamente saboroso; o que é algo a se pensar. Além disso, dá para perceber que os próprios redentores não seguem as regras ou não conhecem de cor todas as inventadas, o que nos leva a fazer algumas associações com alguns ensinamentos religiosos e atitudes de seus seguidores de hoje. Sim, o livro é polêmico assim mesmo.

Seguimos então esse mesmo Cale, frio, que tenta ser indiferente e que ao mesmo tempo tem uma personalidade meio distante das doutrinas do santuário (embora não as desobedeça), para fora desse ambiente após uma série de circunstâncias misteriosas e brutais. É adorável ver as mudanças de comportamento. Aliás, não mudanças exatamente, e sim descobertas. Dá para acompanhá-las e por mais que a ideia do santuário seja extremamente perturbadora, ainda sim é possível ver que do lado de fora existem coisas que superam lacerações físicas e que podem apavorar o protagonista.

Os personagens secundários também são muito bem elaborados, dos dois melhores amigos de Thomas (que ele não considera bem amigos, mas tem uma relação mais amistosa) até Idrispukke, que em minha opinião é o melhor de toda a trama, tem ligações com pessoas importantes no enredo e dá o alívio cômico. Para os nerds de plantão é só imaginar a versão medieval do Han Solo (tem mais inimigos do que lugares para se esconder).

Um ponto que vale a pena comentar é que a história não é fechada no primeiro livro (sim, mais uma trilogia) então ficam muitas, mas muitas pontas soltas mesmo. Pelo que deu para perceber o autor tentou fazer com que focássemos muito no protagonista e na sua nova vida, dando apenas alguns espaços para os enigmas que unem a história. O que dá mais expectativa ainda em ler As Ultimas Quatro Coisas, continuação de A Mão Esquerda de Deus, pois provavelmente é nesse segundo livro que muitas das coisas serão explicadas.

E para os sensíveis, esse livro não respeita muito o estômago alheio, não. Cenas com chicotadas, membros cortados ou ossos fraturados são tão frequentes que dá até a sensação de conforto quando aparecem. Livro recomendadíssimo e já estou juntando dinheiro para a continuação.

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